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sexta-feira, abril 06, 2007

[sem título*]

O quarto àquela hora parecia muito mais escuro do que costumava estar, mesmo quando tinha todas as janelas fechadas. As paredes mais próximas umas das outras, latejando em um desejo cruel de esmagá-lo. A televisão, única fonte de luz no quarto, anunciava a queda de um avião, a morte dos cento e quarenta passageiros além da tripulação. Era o tempo do terror e da exclusão que voltava. Amilcar sabia que sua vida nunca mais seria a mesma; na verdade, voltava ao que era antes.

Luiza encantara-se com aquele tipo tímido, fechado, de poucas palavras. Foi na fila do cinema. Sentou-se ao seu lado na sala escura, ficou a observá-lo. Depois que o filme acabou, correu atrás dele e chamou-o para tomar um café. Convite aceito, com palavras tímidas, quase inaudíveis de tão apagadas. Conheceram-se melhor no café: o nome do rapaz era Amilcar. Perguntado sobre o visível desconforto que sentia, desconversou. Luiza precisou de vários encontros para descobrir o que assustava aquele homem tão singular. Molestado pelo pai e freqüentemente espancado pela mãe, Amilcar desenvolvera um raro tipo de psicose que misturava claustrofobia com agorafobia. Sentia-se péssimo em ambientes fechados, mas era pior em lugares abertos. Um constante medo de viver, sem ter para onde escapar. A moça convenceu-o a procurar um psiquiatra. Passaram um ano juntos, e era visível que Amilcar livrara-se do fantasma dos pais. Chegou a levar flores para seus túmulos, em um cemitério no qual jurara nunca pôr os pés. Sua vida era outra agora.

Voltava, finalmente, depois de uma semana num congresso em Trondheim, Noruega, pensando em Amilcar. Como será que tinha passado sem ela? Luiza tomara para si a responsabilidade de cuidar do homem que amava. Esse amor, sob tal ponto de vista, tornara-se praticamente maternal. Ela não se importava; era a fórmula para a felicidade dos dois. Acordar ao lado de Amilcar, sair com Amilcar - sem que este se escondesse atrás de chapéus e óculos escuros, jantar com Amilcar, enfim, viver com Amilcar dava-lhe um prazer indizível. Mesmo quando, na volta, percebeu que as turbinas do avião haviam parado e estavam pegando fogo, pensava no rosto de felicidade do marido quando soubesse que estava grávida.



*esse texto foi escrito em uma aula de redação, no dia 21/07/2006. Feito a partir da proposta de redação do capítulo 18 do livro do Fiorin que usávamos no CEFET, é o meu primeiro estudo sobre tempos narrativos. Não ficou como eu imaginava (igual àqueles desenhos que nunca saem como a gente quer), mas até que gostei, e a professora também: ganhei 9 em 10. As alterações que fiz para postar aqui foram pequenas - uma preposição aqui e um hífen ali, no máximo.

4 Comments:

Blogger Thais said...

Puts, Dé..
adorei o texto. Mesmo.

Sim que, na minha distração, só entendi direito da segunda vez que li. Fui besta... já devia saber que, num texto seu, nada tá ali por acaso.

Beijos

8 de abril de 2007 21:19  
Anonymous Anônimo said...

trágico. super trágico. OO'
espero que a parte da psicose não seja autobiográfica! HUEHEUHEUHEUEHUE.


:** débora.

9 de abril de 2007 21:03  
Anonymous O Buenossauro said...

é autobiográfica sim.

9 de abril de 2007 21:59  
Anonymous Gustavo said...

cara, bom esse texto son!

Parabens!
Voce brilhou! ** S2 **

10 de abril de 2007 15:46  

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